quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Uma Vida Cheia de Música



Maria Angelina 1951-1975 - Chinguar - Silva Porto

Trabalhou na Rádio Reparadora e na Fadiang, em Silva Porto, as maiores editoras discográficas em África. Alimentou-se da música, do desporto e das amizades. Hoje, Maria Angelina, ou Zita para os amigos, gosta de se lembrar da terra onde foi feliz.

Aos 19 anos, Maria Angelina empregou-se na maior editora de discos da África portuguesa, a Rádio Reparadora, que ficava em Silva Porto. «Vendíamos muita música africana para quase todo o território angolano.» Volvidos alguns anos, esta jovem enérgica, que tinha como grande divertimento trepar às árvores com uma faca na mão, mudou-se para a Fadiang - Fábrica de Discos de Angola, que pertencia ao mesmo dono, e que mais tarde veio a ser seu sogro.

A Fadiang começara a trabalhar em Silva Porto, um pouco depois de a Valentim de Carvalho ter iniciado actividade em Luanda. «Importávamos muita música. Tive o privilégio de fazer selecção daquilo que tinha de exportar, bem como de escolher música africana», explica Zita, que ia a concertos para seleccionar os grupos mais interessantes. «Fazíamos as gravações num estúdio em Luanda, que não era nosso, e depois editávamos os discos em Silva Porto», refere. Esta angolana, que passeava descontraidamente na sua mini-honda, conviveu com o cantor Paco Bandeira, que se encontrava em Angola numa comissão de serviço militar, aproveitando para realizar espectáculos.

Viver a vida

Sempre gostou de música e, ainda que o pai achasse estranho, era com música que conseguia estudar. Baptizada com o nome de Maria Angelina, em homenagem à avó materna, depressa a madrinha a rebaptizou como Zita e assim ficou até hoje.

Fazia parte de uma família de 11 filhos, sendo a segunda das três irmãs, mas lembra-se de, à mesa, serem 18 a vinte pessoas, contando com os primos, que «iam todos lá para casa». Nasceu há 60 anos numa quinta que o seu avô materno, António Cravo, tinha nos arredores de Chinguar, onde adorava estar na companhia das tias. Ali semeava-se trigo e milho e havia espaço para a neta brincar à vontade. Ficava lá três a quatro meses sem sentir «grande necessidade de ir a correr ter com os pais», que moravam a cerca de duzentos quilómetros para norte, no Ecombe. Ali fez a escola primária, marcada pelo facto de os professores baterem nos alunos.

Contra a vontade do pai, a família mudou-se para Silva Porto, actual Kuito. Por essa razão, o chefe da família teve de comprar uma motorizada para trabalhar na moagem. Tratava-se de uma das maiores empresas da região, propositadamente instalada no planalto, por ser considerado o celeiro de Angola, onde havia milho, trigo e se semeava o arroz. Ali existia a linha do caminho-de-ferro de Benguela, de onde vem o nome de Silva Porto Gare.

No liceu, onde ficou até completar o antigo quinto ano, Zita continuou a desfrutar de «uma vida boa» e a fazer piqueniques com os amigos. «Nem que andássemos trinta ou quarenta quilómetros, íamos sempre, umas vezes de boleia, outras de bicicleta.»

Desses tempos, recorda a época em que foi jogadora de futebol e de futsal, na equipa feminina do Bié. Ainda hoje os colegas se reúnem para conviver em festas que nunca juntam menos de uma centena, havendo mesmo quem venha propositadamente do Canadá, como aconteceu o ano passado.

Livros, discos e produtos rurais

Aos 17 anos, Zita foi trabalhar para uma livraria - o seu primeiro emprego - e mais tarde para uma drogaria. Passado algum tempo, trocou-a pela casa comercial de uma tia, situada em Kangote, que ficava fora da cidade (no mato).

Por pressão da mãe, concorreu para ser monitora - hoje seria professora primária - num posto escolar, que ficava em Kapange. A escola era uma cubata, sem bancos nem carteiras e a casa mais próxima ficava a dez quilómetros. Os alunos, que não chegavam a uma dúzia, sentavam-se nuns banquitos feitos em troncos e tinham apenas uma ardósia, mas «manifestavam uma força extraordinária de aprender». «Era fantástico!», sublinha. Sem condições, Zita desistiu de dar aulas e empregou-se na Rádio Reparadora.

Foi ainda monitora da Extensão Rural, uma organização estatal que tinha como objectivo ensinar os angolanos a terem melhores rendimentos nas suas culturas e a fazer subprodutos do que cultivavam. «Ensinávamos-lhes que era possível, por exemplo no caso do amendoim, fazer manteiga de amendoim e aproveitarem o óleo.»

Portugal muito perto

Zita casou-se e a lua-de-mel foi passada em Portugal, onde o marido veio fazer um estágio. Aterraram em Lisboa em Novembro de 1974. «Estava um sol radioso e eu adorei o país.» No dia seguinte rumou para o Porto, onde a chegada foi menos calorosa, com frio e chuva. «Estava um tempo horroroso e eu detestei o Porto, cidade de que ainda hoje não gosto muito», confessa. Em contrapartida, adora o Alentejo, porque lhe faz lembrar as suas planícies, «com espaço, sol e calor».

Ao regressar a Angola, perguntaram-lhe como era Portugal e Zita respondeu: «Muito lindo para darmos uma voltinha e regressar a casa», mas um ano depois, esta angolana de alma e coração, já estava de volta com dois sacos na mão numa ponte aérea.

A família também veio, incluindo o sogro, que foi contactado para montar a fábrica de discos da RDP - Radiodifusão Portuguesa, com a editora Imavox, no local onde se situavam os antigos emissores do Rádio Club Português. A zona que oferecia melhores condições foi Vale de Figueira, e ali o sogro de Zita reergueu a indústria, empregando quase só os seus trabalhadores de Angola. A banda sonora da Guerra das Estrelas, encomendada por Inglaterra, e os milhares de discos, feitos ainda em vinil, não foram suficientes para manter de pé esta empresa que, no nosso país, editava apenas música portuguesa.

Viveu na Guiné e na Madeira, onde teria ficado se o emprego do marido se tivesse mantido. Hoje, já viúva, trabalha nos Recursos Humanos da Universidade Lusófona, é avó e aspira um dia poder mostrar às filhas - portuguesas - a terra onde nasceu e foi feliz.






Cristina Silveira / Write View (Notícias Magazine, 2011)

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